MIL DIAS

Relato sobre massacre de operários durante a construção de Brasília ainda é controverso

Um dos episódios mais controversos sobre a construção de Brasília envolve o relato de um massacre de operários. O fato teria ocorrido no domingo de carnaval de 1959. De acordo com a versão oficial, houve apenas uma morte. Mas, segundo alguns trabalhadores, o número de mortos varia entre nove e mais de 100 pessoas.

O único consenso é que algo aconteceu no dia 8 de fevereiro daquele ano no acampamento dos funcionários da construtora Pacheco Fernandes Dantas. Uma das versões diz que dois carpinteiros que trabalhavam na construção da nova capital chegaram atrasados e bêbados ao refeitório. Após terem recebido marmitas em péssimas condições de higiene, eles teriam começado um motim. Por volta das 21h30, três membros da Guarda Especial de Brasília teriam sido acionados para deter os responsáveis pela confusão. Ao dar ordem de prisão, dezenas de operários teriam cercado os guardas e impedido a ação.  A versão oficial relata que houve um morto, chamado Evaristo Soares Brandão, e três feridos. 

Já outra versão conta que os operários reclamaram após a cantina servir comida estragada. Na sequência, ânimos se exaltaram e um quebra-quebra generalizado teria começado. Pelo menos 60 policiais, armados com revólveres e pequenas metralhadoras, teriam chegado ao local atirando. De acordo com esse relato, muitos operários fugiram, mas nem todos conseguiram escapar dos tiros. Alguns trabalhadores chegaram a contar que houve mais de 100 mortes.

Cobertura precária

A cobertura jornalística do caso foi precária, o que dificulta o esclarecimento do caso. O único veículo que esteve no local foi o jornal alternativo Binômio (MG), órgão de oposição a Juscelino Kubitschek desde os tempos em que o então presidente era governador mineiro. De acordo com a publicação, nove pessoas morreram e cerca de cinquenta ficaram feridas. Veículos de comunicação maiores cobriram o caso apenas superficialmente.

Em 1991, o operário Eronildes Guerra de Queiroz deu um depoimento aos pesquisadores do Arquivo Público do Distrito Federal sobre o caso. "(O comandante) mandou a turma entrar, fazer fila, todo mundo fazer fila para apanhar. Quem corresse levava chumbo. Aí, quem não enfrentava a fila e corria, eles metiam fogo, metiam bala. Sem dó", afirmou. Queiroz não estima um número de mortos, mas, segundo ele,  os corpos foram levados para Formosa, em Goiás. Só um cadáver teria ficado para trás, o de um operário que havia se escondido depois de ferido e teria sido achado apenas no dia seguinte.  Apesar do relato, não há nenhum documento que comprove a violência.

Oficialmente, o massacre não existiu. Ney Ururahy, então chefe de gabinete de Israel Pinheiro, presidente da Novacap (empresa responsável pela construção de Brasília), garante que o relato foi exagerado. "É um exagero terrível tudo isso. A polícia era muito pesada realmente. Mas era muito natural que o fosse. Olha, isso aí passou tão despercebido na época que só muitos anos depois as pessoas começaram a falar, e a imprensa começou a falar sobre isso", disse.

Fontes: Intercom/Rádio Câmara e Memorial da Democracia

Imagem: Arquivo Público do DF, via Memorial da Democracia